Os sinais de alta freqüência da tecnologia móvel proliferam pelos ares do país e estimulam as vendas de notebooks.
A maior parte dos brasileiros, inclusive os moradores de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, nunca operou um computador na vida, mal compreende o que é internet e não tem a mínima idéia do que seja um hot spot. Enquanto isso, os pouco mais de 23 mil habitantes da pequena Piraí, no Vale do Paraíba, a 100 quilômetros do Rio de Janeiro, são íntimos usuários da rede mundial - que acessam inclusive a partir de computadores baseados em quiosques ao ar livre.
A imprevisível popularização da internet em Piraí deve-se em grande parte à tecnologia wireless wi-fi, que possibilita conexões em banda larga por meio de ondas de rádio. Em Piraí, essas ondas são emitidas sobretudo de bases plantadas no alto de algumas das montanhas que a cercam e captadas por antenas do tamanho de maços de cigarros instaladas em vários pontos de seu território. Num raio de até 300 metros dessas antenas, é possível acessar a internet, sem necessidade de tomadas e cabos - desde que a máquina esteja equipada com plataforma wi-fi.
Em todo o país, estima-se, existem entre 800 e 3 mil pontos dotados de antenas wi-fi para acesso público à web - os chamados hot spots públicos. A rede invisível alastra-se rapidamente. Para Ronaldo Miranda, diretor de marketing e vendas na América Latina do maior fabricante de processadores do mundo, a Intel, o número de hot spots no Brasil aumentará em mais de 50% ao ano nos próximos anos.
Hoje, todos os aeroportos brasileiros disponibilizam o acesso sem fio à internet, assim como hotéis, cafés, alguns shopping centers, universidades e até clubes e academias de ginástica. A Rua Amauri, no Itaim, zona sul da capital paulista, onde se concentra a maior parte dos hot spots, é toda coberta por ondas de acesso à web, graças às antenas posicionadas em restaurantes.
Como não se podem cercar as ondas, até os vizinhos de alguns locais que as emitem desfrutam delas. A apresentadora de TV Rosana Hermann, que mora em frente ao Shopping Higienópolis, um dos que oferecem o serviço em São Paulo, descobriu um hot spot em sua sala: "Dá para brincar um pouco com isso", diz ela, que tem 20 contas de e-mail, mas prefere os recursos ainda mais velozes da internet, os de mensagens instantâneas, enviadas principalmente pelo telefone celular, embora carregue também um notebook.
Para a empresária paraense Risoletta Miranda, estabelecida no Rio de Janeiro, a tecnologia sem fio trouxe nada menos que a "onipresença" - 98% de suas decisões, afirma, são transmitidas por e-mail: "Acesso a web nos aeroportos e em qualquer parte, mesmo quando estou de férias nos Lençóis Maranhenses. Para a empresa, não importa mais onde eu estou".
Por enquanto, os hot spots são gratuitos no Brasil, mas os fornecedores deverão passar a cobrar pelo serviço assim que este se consolidar. "O acesso tende a ser pré-pago, por meio de cartões, modalidade que representa 30% da receita com wi-fi na Europa e nos Estados Unidos", diz Renato Rezende, analista-sênior de telecomunicações do International Data Corporation (IDC Brasil).
A Telefônica, dona de uma rede de 500 hot spots públicos, a maior do Brasil, prepara-se para, em 2005, levar as antenas wi-fi para dentro das residências, sobretudo aquelas onde há mais de um computador, que, assim, poderão compartilhar da mesma conexão. Mas a empresa também se prepara para lançar os cartões pré-pagos. "Estes se destinarão principalmente a usuários eventuais, como os vindos de outros Estados do Brasil ou do exterior", diz Benedito Fayan, diretor de desenvolvimento de novos negócios da Telefônica.
No país, atualmente, apenas 5% das vendas de PCs referem-se a computadores portáteis, quando a média mundial é de 30% e a da América Latina de 15%, segundo Cristina Palmaka, vice-presidente da área de sistemas pessoais da HP Brasil. No entanto, diz ela, a demanda por notebooks já aumenta três vezes mais que a procura por computadores de mesa.
Os notebooks sem tecnologia móvel também já estão ultrapassados: desde outubro, 100% dos PCs portáteis da Apple são equipados com wi-fi, segundo Fábio Ribeiro, engenheiro de sistemas da companhia no Brasil. Do portfólio de notebooks da HP, 80% já embutem a plataforma móvel Centrino, da Intel, e, entre os computadores de mão, de 80% a 90% incluem a tecnologia, segundo Cristina. "Está tudo pronto para a virada do mercado brasileiro", diz a executiva.
Publicação: 27/12/06
Revista Época - CÉLIA DEMARCHI
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